sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Ser criança - by Aline Martins

Eu posso dizer que eu tive uma infância feliz. Me lembro da minha mãe fazendo biscoitos, ela não gostava que a gente comesse coisas industrializadas, então ela fazia vários biscoitos diferentes e enchia latas grandes de alumínio com eles pra gente comer durante a semana. Lembro de sempre tomar chá, todos os dias, de todos os sabores, e de sempre levar chá na lancheira. Chá de hortelã com pão de queijo tem sabor de infância, experimenta só pra você ver! Lembro até do cheiro do doce de queijo, incrível como eu nunca gostei de queijo, mas desse doce eu gostava. Lembro de ralar milho pra fazer pamonha e de achar super legal amarrar trouxinha. Parecia uma boneca né?

Lembro de ir no pediatra e de lá, passar no Pão de Açúcar pra ganhar um prêmio, e de sempre escolher um danete de doce de leite, meu preferido, e que nem existe mais. Até hoje sei o nome da clínica, do lugar onde ficava, do meu pediatra, Dr. Onishi, e me pergunto, o que será dele? Será que ele ainda tem o mesmo consultório, com a cortina da Mônica? A mesma paciência e carinho com seus pacientes mirins? E a mesma capacidade de enxergar na gente muito mais até que a gente mesmo? Já não se fazem mais médicos como o Dr. Onishi.

Lembro do meu pai contando historias de contos de fada antes de dormir, do final sempre igual e emocionante. Meu pai dizia: eu até fui convidado pro casamento da princesa com o príncipe, na volta estava trazendo uns docinhos pra vocês, mas quando passei na pinguelinha tropecei e caiu tudo no riachinho. O final da historia não tinha a mesma graça sem essa parte.

Lembro das minhas professoras, como elas precisavam ter paciência comigo. Eu não parava quieta um segundo. Lembro de ter medo da diretora (muito medo na verdade), de cantar o hino nacional no pátio e de ter que formar fila pra ir pra sala. Eu sempre era a primeira da fila, pequena demais, praticamente uma mascote. Lembro dos passeios da escola, de ir no teatro com a escola, de visitar a universidade, o zoológico, e das festas juninas, sempre tão divertidas. E lembro de dançar quadrilha, como era bom! Se eu pudesse, dançava até hoje, mas já adulta parece mico né? rs

Lembro de sentar no colo do meu avô pra ouvir histórias de contos de fadas da cultura popular brasileira. Era cada história diferente e muito legal. Lembro do meu encantamento quando descobri que aquelas historias do meu avô estavam todas no livro “Historias de Tia Anastácia”, de Monteiro Lobato. Que delicia poder ler e reler as historias do meu avô, mesmo quando ele não estivesse por perto pra contar todas elas de novo.

Lembro dos meus brinquedos, do bebezão, das apenas 2 Barbies originais e uma do Paraguay que eu tive. E dos inúmeros jogos de tabuleiro, diversão garantida entre amigos: Boca rica, Genius, jogo da Vida, banco imobiliário, terremoto, cara a cara... Eu e minha irmã passávamos o dia todo brincando.

Lembro de querer muito uma casa da Barbie, mas como ela era muito cara, ganhei uma casa de bonecas de madeira. E que bênção esse presente: dava pra separar o telhado da casa e ao invés de uma, a casinha virava duas casas da Barbie, uma pra mim e outra pra minha irmã brincarmos juntas. Lembro do balanço, da caixa d’água, do pé de amora no quintal, de comprar balinha no Álvaro e de ir no cinema ver a Xuxa e os Trapalhões e seus inúmeros filmes de férias. Quem nunca?

Lembro dos meus amiguinhos de estimação, o Totó, o primeiro de muitos cachorros, um fox paulistinha super esperto, que eu deixei cair no chão logo que ele chegou em casa e quase morreu. Mas ficou conosco por 14 anos e deixou muita saudade. Foi nosso Marley pessoal! E tantos outros: pluto, pateta, sheik, mimi, doly, babu, Rejeito/Jeitoso, Godofredo etc.

Minha infância foi tão querida que eu acho que se hoje eu me esforço para ser uma boa pessoa foi porque eu tive uma boa infância. Quando a gente é criança é que as coisas boas acontecem e ficam. E é isso que eu desejo pro meu filho e pra todas as crianças desse mundo: que elas tenham uma infância querida. Uma infância com cheiros, sabores, memórias, experiências. Infância não é feita de brinquedo caro. Infância é feita de momentos. São eles que marcam nossa vida para sempre.
Luciana, Luana e eu, brincando (e o Totó no fundo, rs) - arquivo pessoal

Feliz dia das crianças!
Um beijo,
Aline

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