sexta-feira, 23 de março de 2012

TDAH? - by Aline

Olá pessoal.

Hoje vou falar com vocês sobre um assunto que está cada vez mais na moda e que atinge em cheio nossos filhos, especialmente quando entram na idade escolar: o déficit de atenção. Também conhecido como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), essa doença neuropsicológica é 3 vezes mais comum em meninos do que em meninas. Ele costuma aparecer entre os 3 e 6 anos de idade, mas hoje é facilmente diagnosticado também em adultos.

Venho lendo bastante sobre o assunto, e vejo que hoje os pais encaram essa doença, e consequentemente o tratamento, como um alívio – e que alívio! Mas por experiência própria, peço a vocês, pais, que tenham cautela no uso de medicamento e no tratamento que vocês dão a seus filhos.

Eu tenho TDAH! Sim, desde criança, e minha infância foi uma espécie de inferno escolar. Mas sinceramente, hoje, como professora, eu tenho plena certeza de que meu “inferno escolar” foi muito mais culpa da escola do que do TDAH. Eu explico. Crianças com TDAH costumam prestar muita atenção, com um nível de concentração acima do normal, naquilo que interessa a elas. O que não interessa, simplesmente não fazem ou não conseguem se concentrar. Além do mais, costumam ser mais ativas – bem mais ativas – que as outras crianças, gastando mais energia com facilidade, e isso requer mais dedicação dos pais e também dos professores. Os pais, por serem pais, agüentam o tranco, de ter um filho movido a pilha alcalina. Mas nem sempre a escola e o professor se propõem a tanto.

As escolas, para facilitar o aprendizado, costumam criar padrões: de comportamento, de aprendizado, de técnicas didáticas. Mas gente, nós não somos padronizados na vida real. Cada pessoa aprende de um jeito, acredita em algo diferente, age de modo diferente diante de um problema. Então por que queremos que nossas crianças sejam todas iguais?

É por isso que eu afirmo categoricamente que a escola é que era o meu problema maior na infância. A escola nivelava os alunos, e pior, por baixo. A professora passava uma quantidade de tarefas no quadro e esperava todos terminarem a lição. Eu terminava tudo muito rápido e aí, com TDAH, inquieta que só, vocês acham que eu ia ficar quietinha na cadeira esperando todo mundo da sala terminar a tarefa? É claro que não. Eu acabava indo passear pela sala, conversava mais que uma matraca solta e a professora acabava me mandando pra coordenação. Não tinha um dia que eu não ia pra coordenação e toda semana meu pai era chamado na escola. Minha infância inteira foi assim.

E engraçado é que em casa as coisas não eram assim. Não lembro dos meus pais brigando o tempo inteiro comigo porque eu tinha muita energia pra gastar. Pelo contrário: minha mãe, percebendo meu excesso de energia, comprava livros e me dava tarefas extras, além das da escola pra eu fazer. E eu gostava, porque me ajudava a concentrar nos estudos e porque minha mãe fazia aquilo parecer algo muito divertido. Além do mais, como eu tinha o dobro de tarefas que a minha irmã, nós terminávamos juntas e íamos brincar juntas, então eu não ficava ansiosa tendo que esperar ela terminar, nem triste porque eu ainda estava fazendo tarefa enquanto ela já podia ir brincar.

Meus pais sentavam comigo pra me ensinar as tarefas das matérias que eu tinha mais dificuldade e em matemática, contrataram uma professora particular pra me ensinar a gostar. Foi essa professora e vizinha dos meus pais que me ensinou a dividir com 2 números, meu segundo maior trauma de matemática (o primeiro é a bendita função rs).

Agora adulta eu tomo remédio pro TDAH. Me ajuda a ficar mais concentrada naquilo que é necessário, a focar nos estudos e no trabalho quando é importante, sem que eu me sinta desgastada. Mas eu já sou adulta e já sei o que funciona melhor pra mim em termos de estudo e aprendizado. Tá certo que eu aprendi a duras penas, levando muita bronca na escola, mas também, precisamos considerar que esse não era um diagnóstico comum nos anos 80.

Hoje nós temos inúmeras opções no mercado de escolas de todos os tipos e com diversas propostas pedagógicas diferentes. Então, por experiência própria, como portadora de TDAH e também como professora, antes de entupir seu filho de remédios, procure um médico, outras escolas com propostas pedagógicas tradicionais e tente terapias alternativas. Investir numa boa escola de música, por exemplo, ajuda seu filho a se concentrar melhor também nas outras áreas do aprendizado sabia? Praticar esportes também é uma ótima alternativa pra ajudá-lo a desenvolver habilidades de concentração e aprendizado que sejam adequadas a ele.

E procure descobrir junto com seu filho, formas de aprender que sejam eficazes para ele. Sabe como eu conseguia aprender a matéria da escola? Ensinando. Eu arrumava todas as minhas bonecas em cima da cama, colocava uma folha de papel e um lápis na frente de cada uma, pegava a lousa e o giz, e brincava de professora. No fim da tarde eu sabia a matéria toda. Acho que é até por isso que eu acabei me tornando professora, porque eu já sei que isso funciona muito bem pra mim, que eu aprendo mesmo, de verdade, quando eu preciso ensinar. E cada um aprende de um jeito. Eu tinha um colega que só aprendia a matéria depois que ele inventava uma musiquinha pra ele cantar com os conceitos que precisava aprender. Ninguém é igual a ninguém, então ninguém precisa aprender do mesmo jeito que todo mundo.

Apesar de ter TDAH eu nunca fui burra. Pelo contrário, sempre tive as melhores notas da sala. Também passei num dos vestibulares mais disputados de Minas Gerais pra direito. Fiz graduação e mestrado em universidade pública conceituada. Mas isso graças ao empenho e esforço dos meus pais. Acho que hoje eles olham pra mim e vêem que valeu a pena cada minuto de esforço deles.

FH é uma criança muito ativa, mas nem de longe eu penso nisso, se ele tem ou não TDAH. Quando ele entrar na fase de alfabetização eu me preocupo com isso. E sinceramente, eu prefiro ter que mudá-lo de escola a entupi-lo de remédios só pra ele ser igual os outros. Eu nunca fui igual, por que eu iria querer isso pra ele?

Já dizia Caetano Veloso: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. E o bom da vida é a gente ser respeitado pelo que somos, mesmo sendo diferentes do padrão social.
Beijos,
Aline

Para saber mais:
http://scienceblogs.com.br/psicologico/2009/03/ritalina-a-solucao-para-seus-problemas/
http://veja.abril.com.br/271004/p_068.html

2 comentários:

  1. Excelente post, Aline!
    Tenho um exemplo disso em casa - meu marido! Vc acredita, que qdo ele estava na escola, uma professora chegou a dizer para minha sogra: "Não sei pq vcs desperdiçam dinheiro pagando escola particular pro F, pois ele não aprende..." Putz, e o pior é q minha sogra ñ fez nada! Ai se fosse comigo... nem sei! A escola onde isso aconteceu é super conceituada ainda hj, mas é prova de q nos anos 80 pouco se sabia sobre o assunto e as escolas eram despreparadas.

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  2. Olá Aline, receio que o exemplo que você descreveu represente apenas o tdah predominantemente hiperativo que é uma minoria das pessoas nesta condição, pras pessoas com tdah do tipo predominantemente inatentivo ou combinado fazer as tarefas(não somente escolares, como as próprias metas e objetivos, etc...) num tempo hábil se torna estafante, frustante e não incomunmente leva a vários problemas de ordem pessoal.
    Por isso é muito importante não apenas se dedicar a entender e ajudar a pessoa, mas também não negar ou temer o tratamento, o medicamento é sim muito eficiente(mais do que apenas ajuda em lidar com as diferenças, os dois juntos melhor ainda) não torna ninguém em "igual os outros" e se usado corretamente auxilia muito a pessoa a desenvolver o seu potencial.
    Eu tenho TDAH também, do tipo combinado, raramente consegui terminar as tarefas antes dos outros, frequentemente nem concluindo(conforme ficando mais velho foi piorando afinal as tarefas começam a ficar mais complexas e precisar de cada vez mais foco e atenção), quase sempre cheguei atrasado em meus compromissos, tomei várias atitudes impulsivas e mal pensadas, senti dificuldade em manter diálogos articulados pois me distraio fácil do que estão falando, e a lista de consequencias segue... mas emfim, o importante é não negar o tratamento por medo(testar é necessário) ou achar que só o esforço é o suficiente, se informe o máximo que puder da condição e tente entender melhor, esta que é uma diferença na própria cognição(parece que pessoas tdah tem um encéfalo com conexões relativamente mais diferentes em comparação a maioria da população "normal").
    Boa sorte e paz.

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