sábado, 14 de agosto de 2010

O Idioma do Bebê - by Aline Berg

Quando estamos frente a frente com uma criança, quer seja conhecida nossa ou não, mal percebemos e já modificamos automaticamente a maneira de falar. Alteramos o timbre da voz e nos expressamos de forma infantil e, às vezes, até mesmo embaraçosa. “Quem é meu fofiiiinho?”, “Vem cááá coisiiiinha maaaais liiiinda” – frases típicas de adultos encantados com o garoto ou a garota. É um comportamento que se repete em diferentes culturas.
Para alguns especialistas, essa linguagem não tem nada de boba. É como se fosse um manual de instruções para que o bebê adquira a habilidade da fala. Pesquisas realizadas na Universidade de Carnegie Mellon, em Pittsburg, nos Estados Unidos, mostram que os pequenos não apenas preferem a linguagem infantilizada como também aprendem mais rápido com ela.

Uma Questão de Ritmo
Quando falamos agudo, por exemplo, prendemos a atenção dos pequenos. A entonação exagerada e cantada, alternando sons fortes e suaves, e o esticar das vogais ajudam a criançada a compreender as variações da língua e as separações entre as palavras. “Grande parte do processo de comunicação se dá no chamado padrão melódico”, diz a fonoaudióloga Jacy Perissinoto, da Universidade Federal de São Paulo. Ela ressalta que, com essa melodia, transmitimos também uma grande carga afetiva. Aos poucos, a fala do adulto se amolda às novas habilidades da criança. “É justamente no diálogo que esses ajustes se fazem, em ambas as partes”, completa Jacy.

Um Universo de Sons
Mal saiu da barriga, a criança começa a brincar com sua capacidade de produzir sons. O primeiro deles, claro, é o choro. Mas, com apenas 30 dias de vida, 40% dos bebês já respondem a estímulos externos com algum barulho, geralmente vogais ou ruídos guturais. Os atos de respirar, engolir e – principalmente – sugar preparam sua musculatura para que, daqui a alguns meses, ele consiga se comunicar verbalmente.

Boca no Trombone
Aos 3 meses, todos são capazes de fazer barulhos, dar gritos ou estalar a língua como uma reação ao mundo. Não pense que são ruídos e gestos sem nexo – ao contrário, esse pequeno e espertíssimo cientista está usando língua, lábios, mandíbula e garganta como um laboratório de pesquisa para testar o prazer da vibração sonora.

Imitar para Aprender
Muito antes de pronunciar as primeiras sílabas, o bebê já se comunica com o mundo à sua volta. Ainda no berçário, de repente ele vê alguém mostrando a língua e naturalmente coloca a própria língua para fora. Em outras palavras, ele está atento ao que acontece a seu redor e já começou a exercitar a melhor estratégia de aprendizado: a imitação.
No início da vida, apenas um olhar mais demorado ou a intensidade no ato de sugar o peito dão pistas de que a criança reage ao que vê, ouve e sente. A todo momento, ela usa os recursos de que dispõe para pedir algo e demonstrar conforto ou desagrado. Observe como ela se antecipa no berço para ser pega, como muda de expressão ao ouvir o som de um chocalho, sua expectativa quando você esconde o rosto com as mãos ou, mais tarde, como ela joga a bola e espera sua volta. "Dessa forma entendemos que a comunicação está se processando", diz a fonoaudióloga Jacy Perissinoto, da Universidade Federal de São Paulo. Aos poucos, esses comportamentos serão associados a sons, elaborando as bases para a estruturação da linguagem.

Ver para Falar
Para que o bebê aprenda a falar, sua habilidade de observar expressões faciais é tão importante quanto a audição. “Ao conversar com a criança, chegue perto dela e fique no nível de seu olhar”, ensina a neuropediatra Vanda Gimenes Gonçalves, da Universidade Estadual de Campinas, no interior paulista.
Pesquisas mostram que, aos 3 meses de idade, um bebê passa a ter mais interesse em ver na televisão alguém articulando uma determinada sílaba do que assistir a um vídeo dublado, no qual os sons e os movimentos dos lábios não são simultâneos.

A Leitura Labial
Parece incrível, mas uma criança de 4 meses também é capaz de distinguir línguas diferentes apenas pelos movimentos dos lábios de quem está falando. Num estudo publicado em maio de 2007 no periódico científico Science, pesquisadores da Universidade de British Columbia, no Canadá, mostraram a um grupo de bebês imagens de adultos conversando, porém com o volume da TV desligado. Os vídeos silenciosos logo entediavam a garotada, mas seu interesse era imediatamente renovado quando os vídeos, com som, eram trocados do inglês para o francês.
Por isso, seja criativo: brinque com seu filho produzindo sons e movendo a boca de diversas formas. Alguns gestos aparentemente banais, como mandar um beijo ou mostrar a língua, são ótimos para estimular o desenvolvimento oral.

Pequenos Tagarelas
Quando chega aos 5 meses, o bebê começa a fazer bolhinhas, brincando com os lábios, e os sons que ele emite passam a se deslocar da garganta para a frente da boca. Isso é óbvio se lembrarmos que, nessa fase, o pequeno está experimentando a posição sentada, o que naturalmente se reflete na fala.

“Mamã e Papá”
No máximo aos 8 ou 9 meses, todos os bebês já começaram a fase de balbucio. É delicioso ouvir suas tentativas de falar, que resultam em “dadadada” e “bababa”. Agora, os sons estão deixando de ser apenas uma fonte de sensações agradáveis e começam a ganhar significado, até que, num belo dia, por volta do primeiro aniversário, vem aquele tão esperado momento em que a criança solta um “mamã” ou “papá”. Pronto. Esse é o pontapé inicial de sua carreira de tagarela.
Mamãe, papai, água e au-au. É tudo o que diz um bebê de 1 ano. Mas sua capacidade de compreensão vai além. Assim como nós, adultos, que temos em nossa massa cinzenta um vocabulário muito mais amplo e que não se restringe às palavras que usamos no dia-a-dia, os pequenos também entendem tudo, porém não falam quase nada. “Papá”, por exemplo, pode significar papai, comida ou sapato, dependendo da entonação. “A criança sabe a diferença e muda o padrão melódico de acordo com a situação”, explica Jacy Perissinoto, fonoaudióloga da Universidade Federal de São Paulo.

(Fonte: http://bebe.abril.com.br/0_12/desenvolvimento/conteudo_243926.php)

Um comentário:

  1. Aline, muito bom esse artigo. Conversar com nossos Bebês é tudo de bom não é mesmo? Já imaginou quando começar a fase do "porque, mamãe"? kkkkk

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